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Review — Decepção Monolítica

As pessoas que me conhecem sabem que consumo uma quantidade absurda de mídia escrita e audiovisual no meu dia a dia. E, embora eu não tenha nenhuma experiência formal em crítica — ainda que me considere uma pessoa bastante crítica, ou pelo menos cheia de opiniões sobre o que vejo e leio — gosto muito de discorrer e divagar sobre os diversos assuntos e conteúdos que estou consumindo. Gosto de encontrar correlações e fazer interpretações — e, quanto mais única e singular a obra, mais satisfeito fico. Para mim, consumir esses conteúdos é quase um trabalho de investigação, como procurar pelos encaixes de um quebra-cabeça. Como pode ser percebido na minha última postagem sobre Fallen Angels, eu gosto de significados.

Quando alguém ousa dizer “eu gosto de significados”, é fácil presumir que essa pessoa provavelmente espera que tudo venha mastigado — interpretado por outros, significado por outros. E, honestamente, admito que, por um tempo, essa foi a minha postura. Muitas vezes eu procurava entender o que o autor estava tentando me dizer com aquilo. E, embora eu ainda ache interessante investigar e compreender a proposta do autor, aprendi a MATAR O AUTOR! Ou, em um tom menos dramático, aprendi a separar autor e obra para entender que tipos de conteúdos a obra produz ao ressoar comigo. Esta dança entre tentar entender a intenção do autor e depois desconsiderá-la completamente (ou quase que completamente — afinal, uma vez que temos um contexto, é difícil deixá-lo totalmente para trás) me levou ao hábito de ler os prefácios e dedicatórias dos livros e quadrinhos, além de navegar pelo oceano de informações que envolvem as obras que consumo, principalmente sua história de produção.

Isto me levou a criar alguns hábitos relacionados à pesquisa de conteúdo. Primeiramente, busco por materiais semelhantes ao que já gosto e venho consumindo. Tenho uma biblioteca considerável e, ao adicionar um novo volume a ela, tento garantir que seja algo que se encaixe com aquilo que já aprecio. Às vezes, essa escolha é estética; outras vezes, procuro conhecer mais sobre o trabalho dos escritores e desenhistas envolvidos, a fim de adicionar obras que, de alguma forma, se alinhem com a temática, mantendo uma coerência no conjunto. Em outras ocasiões, vou de cabeça em algo que desconheço e acho interessante à primeira vista. Também desenvolvi o hábito de não me deixar influenciar muito pelo gosto pessoal dos outros, com exceções — nas quais permito que meus amigos ou pessoas que admiro me deem sugestões. Dessa forma, é comum que eu esteja sempre desbravando, tal qual Indiana Jones, densas florestas de conteúdo em busca de tesouros ocultos.

Normalmente, minhas jornadas ao desconhecido rendem descobertas fortuitas — e me sinto extremamente satisfeito quando isso acontece. Entretanto, nem sempre o saque compensa o esforço: às vezes, tudo o que encontro são um monte de porcarias e expectativas não realizadas, como foi o caso deste mês de abril.

Como meus amigos e conhecidos mais próximos sabem, sou um ávido praticante da irresponsabilidade financeira. O simples fato de ser colecionador já evidencia isso — normalmente, adquiro livros e quadrinhos que me parecem interessantes antes mesmo de saber sobre o que se tratam. Algo que me incomoda bastante — e que, infelizmente, virou padrão (ainda que eu entenda que isso, em parte, sirva para evitar sair por aí torrando todo o dinheiro de forma irresponsável) — é essa necessidade de ter que saber de todas as coisas de antemão. Tudo tem que passar pelo pente-fino da crítica e da opinião dos “sabichões da rede”, uma espécie de “cultura de confirmação” que vem sendo muito praticada nos dias de hoje. Para mim, isso acabou matando um pouco do elemento de surpresa envolvido em conhecer algo pela primeira vez, e de ter uma reação genuína, sem a interferência constante da sinfonia dissonante de opiniões que a internet se especializou em tocar sem parar. Isso, aliado ao fato de que gosto muito da fisicalidade das coisas, faz com que eu normalmente acabe comprando aquele quadrinho da vitrine que pareça atraente, ou que leve o nome de algum artista ou autor cujo trabalho eu já conheça, simplesmente para ter a sensação de chegar em casa, abrir o pacote, folhear as páginas impressas e ler — me surpreender e, em alguns casos, como neste, me decepcionar. Faz parte do processo.

Uma vez que já dei todas as informações relevantes sobre mim, vamos ao relato: dentre os quadrinhos que comprei e consumi neste mês de abril, duas obras me chamaram muito a atenção inicialmente. A primeira, chamada Monolith, de Roberto Recchioni (escritor de uma de minhas histórias favoritas do Dylan DogMater Morbi), e a segunda, Megalex, de Alejandro Jodorowsky (sim, aquele Jodorowsky de Duna com o Mick Jagger), dois trabalhos, que à princípio tinham tudo a ver comigo.

Quando comprei o encadernado de Monolith na livraria, as duas coisas que me chamaram a atenção de cara foram a capa (que por sinal tem uma arte absurdamente colorida e chamativa) e o nome de Recchioni, que como eu disse anteriormente, escreveu uma das melhores histórias de Dylan Dog que eu já li.

Ao chegar em casa e tirar o plástico do HQ — coisa que, para mim, é quase um ritual — fico obcecado por uma ou duas semanas, pensando naquilo que estou consumindo por dias a fio. É um processo que demanda um comprometimento e um gasto absurdo de energia da minha parte, ou seja, um risco considerável a ser tomado. 

Brincadeiras à parte, violar o plástico do quadrinho significa que vou tentar devorar a obra, lendo, relendo e fuçando tudo que puder sobre ela, com uma curiosidade intensa e quase compulsiva.

Ao abrir o volume único de Monolith, eu me deparei com os DOIS prefácios do Reccchioni: no primeiro ele falava de como "histórias às vezes chegam como sinais de rádio do espaço profundo, às vezes dá para ouvir trechos, mas o resto deve ser reconstruído por que o sinal chega com muita interferência" — uma alegoria muito boa, que, diga-se de passagem, vou adicionar ao meu repertório. Entretanto, no caso de Monolith, a obra chegou para ele completa, com começo meio e fim, e que "desde o primeiro momento, (ele) soube que (a obra) tinha um grande potencial", e estas palavras foram o suficiente para aumentar em muito as minhas espectativas. Uma das coisas que considero verdade para mim, especialmente como aspirante a criador escritor, é a de que um trabalho escrito é sempre um exercício de extração, síntese e criação — onde o autor explora possibilidades, testa hipóteses, condensa referências e tenta, de alguma forma, criar arte. Por isso, fiquei com um pé atrás diante daquela declaração: como assim, a obra já está completa? Se não há nada a ser explorado, qual o propósito de sequer criar o texto? Aquilo tudo soou para mim como algo bastante performático, com uma pitada de arrogância. Mesmo assim, segui curioso para ver se a obra cumpriria o que prometia.

Depois disso, ainda no primeiro prefácio, ele continuou discorrendo sobre como a obra foi discutida e idealizada na forma de filme — um filme bem meia boca que saiu em 2016 com a Katrina Bowden (aquela de Tucker & Dale vs Evil, que é um filmão, a propósito) e que não tive muita coragem de terminar de assistir. Nesta hora, meus alarmes de "bullshit" já estavam tocando em algum lugar dentro da minha cabeça, mas eu perseverei na tarefa de ler os prefácios — e eventualmente a história.

O segundo prefácio, para minha surpresa, me apresentou aquilo que considerei o principal elemento do quadrinho — e talvez o mais valioso e interessante: a relação entre a arte de Lorenzo Ceccotti (LRNZ) e toda essa ladainha do “quadrinho-filme”. Nesse texto, Recchioni reafirma que Monolith, a HQ, é uma experiência cinematográfica em forma de quadrinhos. Para alcançar esse efeito, segundo ele, seria necessário deixar que a narrativa acontecesse principalmente por meio da escolha das cores, da montagem das sequências de ação, dos enquadramentos e expressões dos personagens — enfim, pelas escolhas de direção da obra, no sentido mais amplo da palavra. 

Recchioni diz que a parte escrita do trabalho é uma espécie de esqueleto para amparar o trabalho do desenhista, que "o primeiro plano de Sandra, com o nariz que escorre, a pele avermelhada pelo sol e os olhos cheios de lágrimas, tem o mesmo valor se não for maior do que uma longa descrição" e também que "em Monolith o desenho de LRNZ se transforma em escrita, assim como a escrita se transforma em desenho" — o que só reforçou para mim aquela sensação de pompa desnecessária, típica daquele aluno que tenta enfatizar demais a própria importância num trabalho de escola em que participou bem pouco. E, depois de ler o quadrinho é exatamente isto que eu acho: TUDO que é interessante na obra vem da arte de LRNZ.

Para ser bem direto ao ponto — e acredito que provavelmente já desencorajei qualquer possível leitor — a arte de LRNZ tenta retratar os quadros que representam a realidade sem linhas visíveis, usando apenas cores, enquanto a sequência do delírio de Sandra (a protagonista), após ser picada por uma serpente, assume um estilo mais cartunesco, com linhas de desenho bem definidas. Segundo o artista, o principal motivo para essa escolha é que “Monolith se tornou um filme live-action enquanto eu ainda trabalhava no livro” e que assim ele queria tentar retratar os quadros de forma mais realística.

A arte possui uma identidade estética bem definida: as cenas que retratam a realidade são contínuas, sem delimitação por linhas ou traços, sendo demarcadas apenas pelas cores, enquanto as cenas de delírio da personagem é representado de forma cartunesca.

E é exatamente aqui que está meu argumento: a história é extremamente entediante, e essa tal “experiência cinematográfica” prejudicou o desenvolvimento de uma trama ou narrativa mais rica. Para mim, a única parte interessante de fato foi a exploração da arte visual como um “ensaio sobre a forma e os aspectos da mídia” em questão enquanto "quadrinho-filme". O problema é que isso funciona mais como um subtexto do que como o texto principal — numa obra cuja mídia é, em grande parte, escrita.

A história em si soa como um conto de sobrevivência relativamente fraco, com impacto mediano, e isso não ajuda, já que todos os personagens são extremamente bidimensionais e desinteressantes. A protagonista, Sandra, é uma pessoa horrível e uma mãe irresponsável, e toda a trama só acontece por causa da sua “ânsia” por liberdade — que, na verdade, é uma rebeldia adolescente disfarçada. Isso até poderia ser interessante, se ela não tivesse colocado a vida do próprio filho bebê em risco por nada.

Além disso, apesar do risco e do senso de urgência — já que o bebê ficou preso dentro de um carro inviolável no meio do deserto — muita coisa acontece, mas as sequências de ação, mesmo que cheias de movimento, são desinteressantes. Nesse ponto da história, eu já não me importava com os riscos e só queria que tudo acabasse, seja com o garotinho morrendo e a história tendo alguma moral, ou com a mãe salvando-o e aprendendo a sua lição — o que, adianto, não acontece. O “quadrinho-filme” termina com um final ambíguo e covarde, e eu não poderia me importar menos com a história do que já estava. E sendo assim, eu julgo a história uma verdadeira "decepção monolítica".

Para não me estender demais no assunto: na mesma semana em que eu ainda estava no processo de consumir — e consequentemente digerir — Monolith, foi anunciada a pré-venda de Megalex, do Jodorowsky. Como sou obcecado por Incal e Os Metabarões (e toda a história por trás de sua concepção), decidi comprar o volume na Amazon sem pensar duas vezes. Corri para o site e adquiri o encadernado em volume único. Esperei as duas semanas de processamento e envio e, mais uma vez, fiz todo o meu ritual de abertura e leitura do quadrinho. Desta vez, não me deixei enganar pelo prefácio e fui direto para a história.

Pra quem não conhece muito do Jodorowsky, vou tentar resumir: ler uma história do “mano Jodô” é um salto de fé. Ele é maluco, um tanto bagunçado e completamente imprevisível — e, mesmo assim, absurdamente interessante e único. Totalmente my cup of tea

Li Megalex com essa expectativa e, em parte, recebi o que esperava: uma história cheia de maluquices, sci-fi de qualidade, uma premissa intrigante e um enredo que eu sinceramente não fazia ideia de onde ia parar. O problema veio em dois pontos. Primeiro, o elefante na sala: o final. A narrativa se constrói em direção a um confronto épico, só para terminar de forma abrupta — e isso seria ok, se o desfecho não estivesse espremido em apenas duas páginas. É anticlimático e frustrante. Segundo, a arte dos dois primeiros volumes (o encadernado reúne três) é, no mínimo, estranha. Uma mistura de 3D com desenho tradicional, como se tivessem criado os modelos em CGI e desenhado por cima. O resultado é uma estética que achei feia e cafona, que mais atrapalha do que ajuda na imersão. No terceiro volume, a arte muda para um estilo 2D mais convencional — e aí sim, funciona bem melhor, pena que a história simplesmente acaba.

Comparativo das escolhas gráficas: o primeiro quadro, retirado do Volume 1, apresenta um estilo híbrido entre modelagem 3D e ilustração desenhada; já o quadro abaixo, do Volume 3, adota uma abordagem tradicional em 2D.

E assim se encerra minha jornada literária de abril. No próximo mês, a ideia é mergulhar em algumas histórias do Batman que estão há tempos me encarando do backlog. Que este monumento monolítico às expectativas sirva de aviso — ou, no mínimo, de uma historinha curiosa para você, caro leitor. Tenha uma ótima semana e até a próxima!

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